“Novas gerações estão mostrando sua cara”, diz sociólogo

Natália Peixoto e Cinthia Rodrigues – iG São Paulo

Do Último Segundo

As manifestações das últimas semanas nas principais cidades do País e até no exterior romperam um jejum de mais de 20 anos sem protestos que levassem milhões às ruas – o último de grandes proporções foi o dos caras pintadas do Fora Collor, em 1992. O endurecimento da repressão policial e a falta de diálogo do Estado também contribuíram para as mobilizações e fizeram com que a bandeira pela redução da tarifa de ônibus se juntasse a outras causas como combate à corrupção, críticas às políticas urbanas e ao modelo de desenvolvimento econômico, inflação e violência policial.

Para Luiz Werneck Vianna, sociólogo e professor da PUC-Rio, este é um momento histórico, de uma importância “excepcional”. “As novas gerações estão vindo às ruas, estão se apresentando e mostrando a sua cara. Com isso, a apatia em que o País está mergulhado cede”, avalia.

Para ele, os governos precisam aprender a negociar com essas manifestações, que são sem líderes e dispersas, e que o mote principal dos protestos não se limita à amplitude das bandeiras. “Não é o preço da passagem em si, e ela não é diretamente política, já que não está orientada a se contrapor a nenhum partido. Elas exigem reconhecimento e participação na vida política e na vida pública”, afirma Werneck.

O cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que é preciso tomar cuidado para dizer que os protestos, no caso das passagens, não são apenas contra o aumento da tarifa. Ele afirma que, por causa da diversidade dos movimentos que organizam o evento, e da convocação muito descentralizada, há uma “aglutinação” de muitos grupos que se unem ao protesto “menos pela reivindicação, mas mais pela mobilização em si”.

“Eu entendo que a discussão é mais ampla sobre o problema geral do custo do transporte, mas é difícil imputar aos líderes um objetivo que eles não chamam para si”, diz Couto, que afirma que a manifestação é política, porque toda manifestação tem um caráter político, mas discorda que ela seja instrumentalizada. “O grupo é tão diverso que, mesmo que ele tenha elementos que participam de partidos, não tem nem como identificar”, diz.

Os analistas divergem quando perguntados se o estopim das mobilizações teria como causa o aumento da inflação. David Fleischer, professor de ciência política na Universidade de Brasília (UnB), diz que a adesão de dezenas de milhares de pessoas se deve ao pano de fundo do aumento da inflação, que deixou a população descontente e permitiu a mobilização de um número maior de pessoas. “O movimento escolheu um momento em que o mundo está de olho, por causa da Copa das Confederações. Foi um oportunismo. Provavelmente, acabe daqui a duas semanas, como o campeonato.” Para ele, as manifestações devem voltar na Copa do Mundo. “Aí, com ano de eleição, os protestos devem ser maiores ainda”.

Para o professor de economia da Unicamp, Júlio Gomes de Almeida, o protesto é uma insatisfação com a vida urbana, que tem sido cada vez mais difícil, e que tem como ponto principal a mobilidade urbana. “É a análise do custo benefício na área de transporte, que é ruim. Se paga, e não se paga pouco. E, do outro lado, o que se recebe são duas horas presos no trânsito”, diz Almeida.

O economista acredita que o aumento da inflação é muito recente e não influenciou na confiança do brasileiro, segundo pesquisas recentes do Instituto de Pesquisas Avançadas (IPEA) e da FGV, que segue em alta em relação à economia brasileira. “A nossa população vê bem a sua vida, o que causa perplexidade muitas vezes (em economistas) é que o Brasil está crescendo tão pouco há três anos, mas o grau de satisfação é bom”, diz.

Para Couto, a inflação também não seria o verdadeiro motivo para o povo ir às ruas. “O reajuste do preço da passagem, que deflagrou o movimento, ocorre por causa da inflação, então em última instância pode ser. Mas responsabilizar a inflação me parece um equívoco.”

‘Oportunista’

Fleischer alerta, no entanto, para o foco anárquico e oportunista dos protestos. “Não tem liderança no sentido de unidade”, diz ele, citando que a polícia teria negociado um percurso com supostos líderes e o movimento tomou outro caminho na quinta-feira em São Paulo, quando foram duramente repreendidos pela PM.

Já na avaliação do professor Werneck Vianna, é impossível impor freios a movimentos que protestam contra as obras da Copa. “As pessoas veem estampados os gastos sinuosos da Copa do Mundo, e uma remodelação das políticas esportivas por recomendações externas, como da Fifa, e gera mais insatisfação”, diz.

Um comentário em ““Novas gerações estão mostrando sua cara”, diz sociólogo

  1. É possível que o tema gastos suntuosos por conta das Copas (Copa das Confederações e Copa do Mundo) e Olimpíada ainda venha a dar muito o que falar. Esses gastos vultosos em curto espaço de tempo ainda não produziram os protestos que estão “entalados” na garganta do povo brasileiro. Para os que vivem nas grandes metrópoles, assiste-se a descalabro de, em poucos meses, construir estádios luxuosos para atender a esses eventos esportivos que se aproximam, enquanto obras de infraestrutura de transporte, saneamento, melhor educação, melhores condições de atendimento à saúde da população ficam parta trás. Projetos de melhoria da infraestrutura fora dos grandes centros urbanos caíram no esquecimento. Um exemplo disso é o que ocorre com projetos de infraestrutura projetados e decantados para o Litoral Sul da Bahia, como a duplicação da rodovia que liga Ilhéus-Itabuna, uma necessidade urgente, dadas as condições precárias da rodovia que ali está, sinuosa e sem espaços de ultrapassagem, para um trânsito intenso que há cinco anos atrás se fazia em 30 minutos, e hoje se demora 1 a 2 horas, a depender dos horários. Então, esses vultosos gastos por conta dos eventos esportivos estão atuando para concentração de investimentos de baixo impacto social nas grandes concentrações urbanas em detrimento do interior do Brasil.

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