Povo Tupinambá de Olivença realiza troca de saberes entre pesquisadores indígenas e não indígenas

coletivo-foto-haroldo-heleno-750x410Por Daniela Alarcon, Haroldo Heleno e Nathalie Pavelic

Entre os dias 25 e 27 de novembro, teve lugar na aldeia Serra do Padeiro, Terra Indígena (TI) Tupinambá de Olivença (sul da Bahia), o encontro “Luta pela terra e educação na Terra Indígena Tupinambá de Olivença: troca de saberes entre pesquisadores, professores e comunidade”. Na ocasião, foram apresentados e debatidos trabalhos de 20 pesquisadores indígenas e não indígenas que vêm atuando junto ao povo Tupinambá das diferentes comunidades que compõem a TI. Amparados em seus trabalhos, todos os pesquisadores enfatizaram a necessidade de se concluir com urgência o processo de demarcação da TI, que já se arrasta há doze anos, de modo a pôr fim às violações dos direitos de indígenas e não indígenas.

O encontro teve como objetivo propiciar um espaço de trocas entre pesquisadores de distintas áreas e filiações acadêmicas; contribuir para o fortalecimento dos grupos de jovens da TI, assim como para a formação continuada dos professores do Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro (CEITSP) e para o fortalecimento da escola; e, finalmente, oferecer subsídios para o registro e sistematização da memória tupinambá. Além dos pesquisadores, as atividades envolveram lideranças, membros do grupo jovem da aldeia Serra do Padeiro e de outras comunidades, a coordenação de Mulheres da Associação dos Índios Tupinambás da Serra do Padeiro (AITSP), professores do CEITSP e representantes de outras escolas tupinambá e de entidades de apoio, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR/BA) e o Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes). O encontro contou com o apoio da Coordenação Técnica Local da Fundação Nacional do Índio (Funai/Itabuna).

Os debates orientaram-se em torno de dois eixos principais: luta pela terra, e educação e cultura. Discutiu-se, entre outros temas, a caracterização estereotipada dos indígenas no período imperial e nos dias de hoje, os mecanismos de expropriação territorial empregados historicamente contra os Tupinambá, os impactos negativos de políticas ambientais conservacionistas na territorialidade indígena, a criminalização de lideranças ao longo dos séculos 20 e 21 e a repressão contra os Tupinambá. Foram abordadas também as possibilidades de uma escrita indígena da história, a resistência tupinambá e o papel dos troncos velhos, a importância dos festejos religiosos na territorialidade indígena, as articulações políticas engendradas pelos Tupinambá contemporaneamente, a participação das mulheres na luta pela terra, os caminhos para o desenvolvimento de uma antropologia colaborativa e as potenciais contribuições da luta tupinambá para outros processos de resistência. Além disso, foram debatidos os avanços e limites da implementação da educação escolar indígena no contexto tupinambá, a construção de um projeto educativo formal como modo de organização sociopolítica, propostas de adequação de material didático, experiências em sala de aula e formação de professores indígenas.

Um dos destaques da programação foi a mesa redonda “Relatos sobre a luta pela terra”, realizada no dia 25, na qual dona Maria da Glória de Jesus e dona Maria José da Silva (Maria Cabocla) puderam narrar episódios de suas trajetórias de vida e de seu envolvimento no processo de retomada. Na noite do dia 26, a conferência de encerramento reuniu o cacique Babau (Rosivaldo Ferreira da Silva) e João Pacheco de Oliveira (professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/ Universidade Federal do Rio de Janeiro). Em suas exposições, ambos enfatizaram que, no Brasil, a ação direta por parte dos povos indígenas – com a realização de retomadas de terras e autodemarcações – tem sido central na garantia dos direitos territoriais indígenas. O encontro concluiu-se na manhã do dia 27, com a visita a algumas áreas retomadas, sítios que permaneceram em posse dos indígenas a despeito da expropriação e outros pontos importantes do território tupinambá.

Retratos de alguns dos troncos velhos da Serra do Padeiro foram reunidos na mostra fotográfica concebida por Glicéria Jesus da Silva e montada pelo grupo jovem. Além disso, a exposição recuperou, a partir de reproduções de imagens de arquivos pessoais de indígenas da Serra do Padeiro, a trajetória de resistência de Rosemiro Ferreira da Silva (seu Lírio), pajé da aldeia, e dona Maria da Glória de Jesus ao longo de quatro décadas. Foram realizadas também exibições de filmes que abordam a história indígena e chamam a atenção para a urgência da demarcação da TI: Tupinambá – O Retorno da Terra (dirigido por Daniela Alarcon), Retomada (dirigido por Leon Sampaio), Areal (realizado por Atiati Tupinambá, Daniela Alarcon, Fernanda Ligabue e Aléxis Góis) e Caboclo Marcellino (dirigido por Nildson Veloso). Foi apresentado ainda o documentário Voz das Mulheres Indígenas (dirigido por Glicéria Tupinambá e Cristiane Pankararu), que retrata as trajetórias de luta de mulheres indígenas do Nordeste.

Presente no encontro, Ivonete Gonçalves, do Cepedes, divulgou a “Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida”, disponibilizando livros e outros materiais impressos sobre o problema. Na ocasião, ela denunciou o avanço da monocultura na Bahia e alertou para o uso indiscriminado de agrotóxicos, que provoca impactos negativos nos territórios tradicionalmente ocupados e danos à saúde. Além disso, chamou a atenção mais particularmente para o caso da produção de eucalipto em grande escala no extremo sul do estado, que se iniciou nos anos 80.

Ainda no encontro, teve lugar o lançamento do relatório Violência contra os povos indígenas no Brasil – Dados de 2015, publicado pelo Cimi. O documento registra os assassinatos de três indígenas tupinambá, ocorridos em maio e setembro do ano passado. Tragicamente, o evento terminou marcado por mais um episódio de violência contra os indígenas. Na manhã do dia 26, na estrada que liga a cidade de Buerarema à aldeia, Luiz Viana Lima (Luizão), 54 anos, foi morto a tiros em uma emboscada. Luizão vivia na aldeia e participava do processo de recuperação territorial que os Tupinambá vêm levando a cabo desde 2004, quando teve início o processo de demarcação da TI.

Como resultado do encontro, os pesquisadores e representantes das entidades de apoio elaboraram uma agenda de ações conjuntas, determinados a se manter articulados para contribuir com a luta tupinambá. Em breve, os debates ocorridos no encontro serão compartilhados amplamente.

 

Fonte: Combate Racismo Ambiental.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.