Um ensaio sobre o movimento do Sagrado Feminino

Após mais de 5 anos de caminhada no Sagrado Feminino, respeitando o caráter sigiloso que envolve esse trabalho, sinto que para mim é chagada a hora de escrever. Humildemente eu registro essas palavras acreditando em uma contribuição sobre o assunto, sou uma professora e Guardiã de Círculo de Mulheres e cada vez mais mulheres se mostram interessadas nesse assunto. Eu início, assim como nos trabalhos ritualísticos do círculo que conduzo, honrando a minha ancestralidade no caminho do Sagrado, as mulheres que me iniciaram, me ensinaram, as que escreveram livros e promoveram cursos com as quais tive a oportunidade de compartilhar da sutileza e da beleza desse conhecimento precioso. Gratidão a todas as minhas irmãs mais velhas e comadres que tecem comigo. É por isso que não é possível encontrar fórmulas prontas, uma sistematização sobre o assunto, porque o Sagrado é muito mais sobre o que se experiência no caminhar do que sobre o que se lê. Essa sabedoria é construída internamente a partir do momento que uma mulher decide caminhar para dentro de si, e ao mesmo tempo é tecida a muitas mãos, quando compartilhamos umas com as outras esse despertar, ao som do tambor cantamos que “somos um círculo dentro de um círculo que não tem começo e não tem fim”. Quero ressaltar o quanto esse despertar contribuiu para minha vida, o quanto me ajudou a superar questões que me afetavam há muitos anos e que me atrapalhavam e me traziam sofrimento.

O Sagrado Feminino é um movimento na direção do feminino compreendido como energia essencial divina. Assim como o masculino que vem sendo reverenciado nos Deuses que são pais, mestres, profetas, discípulos, existem as Deusas, mães, mestras, feiticeiras, rezadeiras, curandeiras. A diferença é que as representações masculinas são consideradas do bem e as femininas do mal. Busca-se, através da reverência ao aspecto feminino das divindades, seja qual for a matriz religiosa, resgatar a sacralidade da natureza feminina expressa em cada mulher. E não se trata de um movimento religioso, mas antes de tudo espiritualista, existencialista que, inspirado pelas divindades femininas e seus mais diversos aspectos, busca integrar em cada uma de nós a Deusa Interior, que significa seguir na direção do amor próprio e do respeito por si mesma e consequentemente por todas as mulheres e as manifestações do feminino.

Patrícia Rocha, em seu livro “Mulheres sob todas as Luzes: a emancipação feminina e os últimos dias do patriarcado”, explica que a deusa-mãe reinou absoluta por todo o planeta desde o fim do período paleolítico até o início da idade do bronze. O sexo feminino era reverenciado por sua capacidade de reprodução e total desconhecimento do papel do homem na concepção, entretanto havia uma comunhão entre homens, mulheres e natureza que marcou a pré-história. Apesar de as mulheres representarem papéis predominantes em todos os aspectos da pré-história, não havia sinais de que a posição dos homens fosse de subordinação ao sexo feminino de modo que a subjugação, a subserviência, a punição e a destruição não marcaram presença no reinado dessa deusa.

Entretanto, durante os milênios da supremacia masculina, o patriarcado e as religiões nele inspiradas, se uniram na construção de uma sociedade hierárquica e desigual, centrada na violência e na dominação, refletida nos valores espirituais, culturais, sociais, e amparada pela hierarquia divina masculina, que reprimiu a manifestação da energia feminina, tanto divina quanto humana. Nesse sentido, o Sagrado Feminino constitui um movimento que pode ser comparado a um feminismo místico, ou existencial, como eu tenho me referido ultimamente, que visa combater o patriarcado que influenciou na formação do pensamento religioso dominante em que o masculino é associado a divindade e o feminino ao pecado, o masculino é a luz e o feminino é a sombra, o masculino é puro e o feminino é impuro, tal como a mitologia cristã de Adão e Eva.

Rose Marie Muraro em um trabalho intitulado “Textos da Fogueira” destaca a relação de poder do masculino sobre o feminino pela manipulação do sagrado, que justifica a violência dita como legitimada por Deus. Nessa lógica, a sexualidade é considerada pecado, o que torna, por isso mesmo, a mulher perigosa. A autora tenta desmistificar a “face satânica” da sexualidade para justificar o poder de dominação de um gênero sobre outro. Na inquisição 85% das pessoas queimadas foram mulheres, por isso foi denominada de caça às bruxas. O livro da inquisição chamado O Martelo das Feiticeiras, escrito em 1484 por dois frades dominicanos explica que homem tem três instâncias, a primeira é o espírito governado por Deus; a segunda é a vontade, que é governada por um anjo; a terceira é o corpo governado por uma estrela (no sentido astrológico). E Satanás que é um espírito imundo, só pode chegar no homem pelo corpo, e principalmente pelos órgão sexuais, porque os órgãos sexuais são o local da mulher. A mulher é cúmplice de Satanás, porque ela cometeu o pecado original.

Essa condição de maneira simbólica imprimiu, ao longo do tempo, uma cultura de negação, punição, dominação e aprisionamento do feminino, e as mulheres de forma inconsciente vem reproduzindo ao longo da história a cultura patriarcal que gera sofrimento, dor e o sentimento de vingança que tem crescido como via de superação dessas violências, mas que na minha opinião não resolvem o problema. Acredito na complementariedade das lutas feministas, e sugiro que o movimento do Sagrado Feminino é o lugar da consciência individual, da cura, do perdão e do acolhimento. É um espaço de descanso da mente, do corpo e do espírito em que a mulher pode lamber as feridas e se se reerguer para os próximos desafios. É um lugar em que seu corpo, sua mente e sua alma encontraram terreno fértil para celebrar e reverenciar o seu feminino que é sagrado assim como você é: uma filha da Deusa.

Para Cláudio Naranjo, médico, psiquiatra e educador chileno, a cura dos males do mundo envolve ir além do patriarcado e resgatar o princípio matrístico da vida. Segundo ele, foi a condição patriarcal da sociedade quem determinou que as tendências agressivas e competitivas do homem se expressassem, mais do que a ternura e a cooperação, associadas à maternidade e ao feminino.

O resgate do Sagrado Feminino, portanto, é um processo de reflexão e tomada de consciência voltada aos valores femininos integrados nos aspectos, biológicos, social, cultural, religioso, psíquico e espiritual, na busca pelo equilíbrio nas relações com o masculino e com a natureza, que costumamos denominar de cura do feminino. Após sucessivas violências e injustiças geração após geração, de alguma forma herdamos os pactos de submissão, de sofrimento assim como a sede de vingança de todas aquelas que nos antecederam. Porque somos as descendentes das bruxas que não foram queimadas, das sacerdotisas perdidas, das feiticeiras ocultas, das rezadeiras escondidas, de Maria Madalena, que por muito tempo estiveram renegadas as sombras, ao pecado e a impureza.

O movimento do Feminino Sagrado é um chamado, um convocação a todas as mulheres a despertarem do sono profundo da dominação e da submissão para a apropriação de seu poder original, parte da criação, da força básica motriz, criadora, essencial de todo universo. É chagada a hora do retorno da Deusa.  Edward C. Whitmont escreveu obra obra com esse mesmo nome, “Retorno da Deusa”, em que afirma que após milhares de anos de dominação masculina, em que foi negada e suprimida, a Deusa reaparece num momento de intensa necessidade, em que ansiamos amor, segurança e proteção. A violência no seio da nossa sociedade ameaça nos dominar por inteiro, e a Mãe terra foi pressionada ao limite máximo de sua capacidade. Essa relação entre dominação da mulher e dominação da natureza como desdobramentos do patriarcado tem espaço nas discussões no ecofeminismo, que também tem ganhado espaço nos últimos anos.

Desta forma, os trabalhos voltados ao Sagrado feminino buscam o reequilíbrio que pode ser obtido aproximando-nos do inconsciente, representado pelo feminino, não só através do arquétipo da Grande Mãe, mas de todas as qualidades simbólicas do feminino e das representações das divindades femininas das mais diversas matrizes religiosas. Somos por essência um movimento ecumênico e inclusivo, não só acolhendo-se as mais diversas formas de fé como a diversidade das manifestações femininas de gênero e orientação sexual.  Tal processo passa pela retomada da conexão interior, pelo desenvolvimento do auto amor e do auto respeito, além da conexão com a natureza feminina essencial. Assim eu considero que esse resgate passa pela exaltação da energia feminina dos seus talentos como a maternidade, suavidade, sensibilidade, criatividade, comunicabilidade, beleza (nas suas mais diversas formas), sensualidade, delicadeza, vitalidade, alegria e força. Todas essas características femininas que, em razão da cultura patriarcal foram demonizadas, reprimidas ou negadas.

A Clarissa Pinkola Estés, autora de Mulheres que Correm com Lobos, um dos clássicos do Sagrado, nos diz que quando uma mulher toma a decisão de abandonar o sofrimento, a mentira e a submissão, quando decide abrir mão da ilusão, buscando curar suas próprias feridas de forma consciente e responsável, inicia o processo que a devolve pouco a pouco a si mesma, essa mulher estará trilhando esse caminho. A maioria de nós não tem sido amorosa o bastante para consigo mesmas, em geral não tomamos consciência do quanto somos cruéis e violentas com nós mesmas e com todas as outras manifestações do feminino como reflexo disso.

Existem alguns eixos principais que costumam nortear os trabalhos de busca do Sagrado Feminino que são: encontro com a deusa interior, respeitando a integralidade, multiplicidade e pluralidade dos femininos que são expressões individuais; respeito aos ciclos naturais da mulher e celebração da maternidade e da maternagem como dons; união, cooperação e solidariedade entre as mulheres que hoje se traduz na palavra sororidade; a reverencia a Mãe Terra, representada pela natureza em geral, associada a Grande Mãe que possibilita a vida na Terra; bem como o perdão e o acolhimento do masculino na busca pela harmonia entre essas energias, tanto o masculino interno quanto as relações entre os gêneros socialmente construídas.

O Sagrado Feminino frequentemente se organiza através de Círculo de Mulheres, movimento que possui grande força tanto no Brasil como internacionalmente. A criação desses Círculos se mostra como epicentros energéticos dos conceitos matrifocais, gilânicos (o trabalho de Riane Eisler lança luzes sobre o que é a gilânia, que trata da equidade entre gêneros, sobre as relações de parceria), onde a se cultua o feminino como uma manifestação matrística (conceito de Humberto Maturana e sua teoria da dinâmica da matriz biológico-cultural da Existência Humana) que não se limita ao feminino, mas contêm em si o masculino, um masculino genuíno essencial que aceita um conviver de igual para igual, e de valorização da figura feminina. Que aprendeu a honrar as mulheres e o feminino e suas mis diversas manifestações.

Círculos de Mulheres tais como os propostos pela escritora e psicanalista Jean Shinoda Bolen, em seu livro poema “O Milionésimo Círculo” incitam a transpor barreiras rumo a um adentrar na espiritualidade feminina, através de instrumentos diversos como meditação, terapias individuais e coletivas, pelo estudo dos arquétipos, pelos tarôs das Deusas, pelo xamanismo e medicinas tradicionais. São convocadas a retomarem a condição de curandeiras de si mesmas e das suas irmãs. As mulheres em Círculo aprendem a se desfazer dos parâmetros hierárquicos que lhe foram cunhados na alma, encontram um ambiente amoroso e acolhedor para compartilhar dores, angustias e medos. Aprendem, acima de tudo a respeitar a si mesmas e ao que vem do feminino, a sacralizar o que vem da mulher e da natureza, reconhecendo a própria natureza, que carrega em si o portal para se chegar a Terra. Seja em Círculos ou Grupos, a construção espiritual feminina possibilita a sensação suave e materna de “estar em casa”, num colo de mãe, onde podemos manifestar, expor e curar o nosso feminino. Se costuma associar os círculos ao útero, viemos e retornaremos a ele, portanto para nós são como símbolos do sagrado.

Assim como as obras citadas, várias pesquisadoras e pesquisadores escreverem sobre esse movimento sendo a Mirella Faur considerada uma das percussoras no Brasil. Através de rituais públicos dos plenilúnios, das celebrações da Roda do Ano, dos grupos de estudos e da realização de ritos de passagem, escreveu diversos livros como “O Anuário da Grande Mãe, Rituais práticos para celebrar a Deusa”, “O legado da Deusa. Ritos de passagem para mulheres” e “Mistérios nórdicos. Mitos. Runas. Magias. Rituais”, dentre outros, além de diversos artigos em publicações nacionais e estrangeiras.

Além dela devemos também registrar as contribuições de Miranda Gray. Miranda é uma escritora americana, professora espiritual e facilitadora de oficinas sobre a natureza cíclica da espiritualidade e energia das mulheres. Tem diversos livros publicados e o mais recente “Lua Vermelha”, trata do resgate da sabedoria do sagrado feminino para mostrar às mulheres modernas como elas podem voltar a aceitar a sua natureza cíclica e se reconciliar com todos os aspectos da feminilidade, através dos arquétipos da menstruação. Realiza internacionalmente o movimento denominado Bênção do Útero, que convoca mulheres ao redor do mundo a reverenciarem seus corpos.

Há ainda, no Brasil movimentos como a Universidade do Sagrado feminino e o Encontro Mundial de Círculo de Mulheres, idealizados por Soraya Mariani, coordenadora da Ciranda da Lua e coautora dos livros “Ciranda da Lua – Uma Colcha de Retalhos” e Ciranda da Lua – Sob a Tenda Vermelha. Certamente não conseguirei citar todas a mulheres que tem contribuído e inspirado outras mulheres a trilhar esse caminho, mas registro minha reverencia e gratidão a todas elas.

Outras obras importantes para se entender o Sagrado Feminino são “A Grande Mãe” de Erich Neumann, “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler, “A Civilização da Deusa” de Marija Gimbutas, “A deusa interior” de Jennifer Barker Woolger e Roger W. Woolger, “A dominação masculina” de Pierre Bourdieu, “Mulheres sob todas as Luzes: a emancipação feminina e os últimos dias do patriarcado” de Patrícia Rocha,  “O livro das mulheres: Como entrar em contato com o poder feminino” de OSHO, “O Feminino e o Sagrado- mulheres na jornada do herói” de Cristina Balieiro e Beatriz Del Picchia, além dos oráculos “Oráculo da Deusa” de Amy Sophia Marashinsky, “The Goddess Tarot”  de Kris Waldherr e o “Tarô da tríplice Deusa” de Isha Lerner. Sobre tarôs tenho percebido uma multiplicidade de oráculos sendo criados nas mais diversas matrizes mitológicas revelando a fertilidade desse movimento.

Considerando as serias limitações para se explicar algo tão sublime e profundo, e o esforço humilde, diante dos meus parcos conhecimentos sobre o Sagrado, esta é a minha contribuição. Foi uma tentativa de descrever e explicar o movimento do Sagrado Feminino através das teorias e livros que tem guiado esses trabalhos, sem nenhum compromisso com a verdade. Porque a verdade somente pode ser encontrada quando uma mulher decide romper com a dominação e se reconhecer como quem de fato é: uma Deusa, filha da Grande Mãe, tão humana quanto divina, tão perfeita quanto múltipla, tão bela quanto forte, tão suave quanto firme, tão Sagrada quanto Mulher. Gratidão!

Aline Maron Setenta

Guardiã de Círculo de Mulheres em Itabuna – Bahia

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